Keanu Reeves interpreta Neo, o Escolhido para salvar a humanidade das máquinas

A esta altura, exatos 20 anos após o lançamento de “Matrix”, todo mundo já conhece o efeito “bullet time” (aquele em que acompanhamos em câmera lenta, de vários ângulos, o movimento de pessoas e objetos), usado agora à exaustão no cinema. Ele está longe, no entanto, de ser um dos principais legados do filme, hoje um clássico moderno da ficção-científica.

Ao mostrar a história de um Escolhido (Neo, interpretado por Keanu Reeves) para livrar a humanidade da opressão das máquinas, num futuro próximo, a obra dos irmãos Wachowski tornou-se um dos filmes mais estudados dos últimos anos, tema de aulas e conferências em áreas como Filosofia, Sociologia, Psicologia e Engenharia da Computação.

Para Juri Castelfranchi, professor de Sociologia de Ciência da Tecnologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o filme está mais atual do que nunca. “Especialmente entre os transhumanistas, que acreditam que, daqui a pouco, será possível fazer upload de nossas consciências nas redes, desistindo do corpo para ter uma consciência pura na internet atual”, constata.

Quatro questões

Castelfranchi brinca que a riqueza de discussão do filme é tão grande que daria para fazer um “congresso internacional de uma semana inteira”. Mas elege, entre os preferidos, quatro tópicos, dois ligados à Filosofia, um à Antropologia e outro à Sociologia. Começando por este último, ele chama a atenção para a questão do medo de virarmos escravos das máquinas.

“Na ficção-científica, intui-se muitas coisas que são nossos dilemas de hoje. Falam do aqui e do agora, a partir do que somos agora. Um problema que a sociedade não consegue gerir é o medo de que aqueles que seriam nossos escravos consigam ficar mais fortes e se libertar. O que ‘Matrix’ está dizendo é ‘cuidado ao construir algo ao qual tudo se delega’”, analisa.

Do lado da Antropologia, o ponto a ser levantado é: o que faz o ser humano ser humano? “Você precisa ter a consciência humana e um corpo humano. Nos filmes de terror, vemos muitos corpos sem consciência, como zumbis. No caso da inteligência artificial, são consciências humanas sem corpos e isso dá um medo danado na gente”.

Na luta que os humanos do filme promovem contra as máquinas, surge uma questão filosófica: até que ponto nossa felicidade está ligada ao corpo? Em “Matrix”, salienta Castelfranchi, a mente independe do corpo. “Se focarmos na inteligência, usando a emoção e o raciocínio, certamente seremos melhores do que as máquinas”, registra.

Por fim, o longa exibe uma discussão, também filosófica, sobre os objetos, se são eles meros instrumentos, nem do bem nem do mal. “Não é bem assim. As máquinas compram a nossa maneira de ver o mundo, refletindo relações de poder. Elas tendem a fortalecer quem está no poder”, pondera o professor.

Filme faz referências a equipamentos de rede de computadores

Especialista em Engenharia de Controle e Automa-ção , professor universitário que dá aulas sobre o tema, Marco Aurélio Birchal enxerga uma relação direta entre os personagens de “Matrix” e os equipamentos de rede de computadores.

“Personagens como Mouse e Switch carregam nomes de equipamentos. Até Morpheus, que é o nome de um software. O Oráculo, a quem Neo procura para saber se é o Escolhido, faz alusão justamente a um banco de dados muito importante e famoso”, observa.

De acordo com Birchal, há relações diretas entre os eventos da computação e situações usadas na narrativa, como o déjà vu (sensação de ter já presenciado determinado acontecimento) e o looping (repetição automática de uma ocorrência), mostrando que, “de fato, a trama ocorre dentro de um computador”.

“Quando vão em busca do Chaveiro, para abrirem certas portas, trata-se de uma referência às chaves de criptografia, de segurança de rede”, explica o professor, que vê como exagero a ideia de o homem ser escravizado pelas máquinas.

“(O cientista Albert) Einstein falava que qualquer tecnologia muito avançada parece algo meio mágico. Quando a gente não tem um entendimento da tecnologia, passa a adotar essa visão pessimista. De modo geral, a máquina está aí para auxiliar o homem, uma grande ferramenta para estender a capacidade humana”, analisa.

Para ele, o virtual nada mais é do que uma extensão do físico, que é limitante. Birchal cita como exemplo os óculos de realidade virtual, que transferem o seu usuário para outra realidade.

“Muito da discussão, especialmente no campo da sociologia, é sobre o medo de a tecnologia tomar nossos empregos. Isso não vai acontecer. De fato, um robô irá substituir o homem em situações insalubres e repetitivas que nada acrescentarão à pessoa. Na verdade, ele está dando uma condição melhor ao ser humano”, afirma.


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