Oscar 2019: Um olhar social

Oscar 2019: Um olhar social

-Brancos ricos me pagam para tocar piano porque isso faz com que se sintam cultos. Mas assim que deixo o palco, volto a ser apenas mais um crioulo para eles. Porque essa é a cultura deles. E sofro sozinho porque não sou aceito pela minha própria gente. Porque também não sou como eles. Então se não sou preto e nem sou branco, ou homem o bastante, então diga-me, o que eu sou? (Diálogo do filme Green Book)

Em entrevista a Revista Época (edição de 29/08/08), o diretor de cinema Walter Salles Júnior afirmou que o papel principal do cinema “é gerar uma memória de nós mesmos”, refletir o retrato de uma sociedade num dado momento. Neste mês, mas precisamente no dia 24, os olhos do mundo estarão voltados para a cerimônia maior do cinema, o Oscar 2019. Não tem como desassociarmos as produções que concorrem esse ano às transformações econômicas, políticas, sociais e culturais que moldam a nossa sociedade.

Se pegarmos como exemplo um filme de entretenimento como o “Pantera Negra”, o primeiro filme de super-heróis a concorrer na categoria de melhor filme, é notório que o retrato da representatividade da comunidade negra foi fator decisivo para o feito. Não desmerecendo o filme com seu belo roteiro, atuações, figurinos, efeitos especiais e demais elementos compositivos, mas o empoderamento que o filme dá aos negros, em um mercado que ainda o coloca como mero coadjuvante é, sem sombra de dúvidas, o melhor acerto da produção.

A temática racial é também destaque nos filmes “Infiltrado no Klan” e “Green Book: O Guia”. Ambos mostram personagens negros como protagonistas. Ao contrário do “Pantera Negra”, que já mostra uma sociedade negra, organizada e forte, estes dois últimos são ambientados nos EUA nos anos de forte segregação racial. Logo, seus enredos retratam personagens que buscam romper de forma sutil e/ou intensa, estigmas que os objetivam como subalternos ou subversivos. As diferentes vertentes, girando em cima de um tema central, convida o espectador à reflexão.

“Roma”, candidato a melhor filme e favorito na categoria de melhor filme estrangeiro, trás, também, em seu enredo, temáticas sociais de conflitos históricos. O filme retrata o México dos anos 70, mostrando a história de Cleo, uma jovem empregada doméstica, pobre, sem instrução e sozinha, tendo que lidar com as consequências de um mundo desigual e patriarcal. Nada mais atual, não é mesmo? Para além da película impecável, o filme é destaque pela forma de transmissão. “Roma” é o primeiro filme produzido por uma plataforma via streaming (distribuição digital online) a concorrer ao Oscar, fato histórico que alavancará ainda mais esse meio de transmissão, para além das salas de projeções dos cinemas como conhecemos, evidenciando o poder da cultura digital no nosso dia a dia.

“A Favorita”, “Bohemian Rhapsody” e até mesmo “Vice”, abordam, mesmo não sendo este o tema central dos seus enredos, a identidade de gênero. Tema que ainda é, sobretudo no Brasil atual, polêmico e de necessário debate. O ator Rami Malek apresenta a biografia do cantor britânico Freddie Mercury em uma atuação impecável. O filme foi alvo de críticas dos movimentos LGBTQ+ que acusaram a produção de esconder a homossexualidade do cantor. Porém, a sutileza que o ator apresenta os conflitos de seu personagem são suficientes para passar as mensagens pretendidas.

O empoderamento feminino é destaque em “A Favorita”. Embora o enredo coloque todas as personagens mulheres em situações diminutas: a rainha por suas limitações físicas e por sua personalidade mimada e manipulável; as duas coadjuvantes em uma disputa vexatória por sua atenção; o empoderamento feminino está presente na interpretação dessas três atrizes. Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz, todas concorrendo ao Oscar, a primeira como melhor atriz e as demais como melhores atrizes coadjuvantes, conduzem a produção com destrezas incontestáveis.

E o que dizer de Lady Gaga, protagonista do filme “Nasce uma Estrela”? Com personalidade marcante, a cantora e autodeclarada representante do movimento feminista, já estreia no cinema com uma indicação ao Oscar de melhor atriz, fora a indicação por “Shallow”, melhor canção e favorita para levar a estatueta. É um feito, sem dúvida, importante na discussão e luta pelos direitos das mulheres.

Os interessados na temática feminista o encontram também em “A esposa”. O filme não é indicado na categoria melhor filme mas é conduzido pela avassaladora interpretação de Glenn Close, que concorre ao seu sétimo Oscar como melhor atriz por esse trabalho. A película narra a bem construída história da esposa de um famoso escritor e traz a tona a vida dessas mulheres “construtoras de reis”, muitas vezes mais virtuosas que seus maridos, elas vivem nas coxias da sociedade patriarcal vendo os homens brilharem nos palcos à custa dos seus talentos. Até quando?

Um filme não pode ser encarado apenas como mero entretenimento. Ele é um instrumento de expressão e comunicação social, um meio de transformações, um fluxo ininterrupto da nossa cultura, e diz muito sobre nós e o que queremos refletir e mudar no nosso mundo. Não tem como assistirmos essas obras ignorando esses fatores. É papel das artes em geral abordarem temas e discussões atuais que oportunizem chaves que podem abrir as portas da liberdade, para equidade, empatia e diálogo.

AUTOR: Carlos Wagner
Cinéfilo, estudioso e entusiasta das culturas digitais


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