Universidade Para Todos, programa dos governos Lula, mudaram o perfil universitário no país.

O anúncio feito pelo presidente do Senado, Eunício Oliveira, – e ainda não confirmado pelo MEC -, de que Quixadá sediará um dos cinco cursos de medicina destinados ao Ceará, tem sido amplamente usado como plataforma política por parte dos apoiadores locais de Eunício e Michel Temer.

Ao mesmo tempo em que utilizam a promessa de Eunício para se promover, pedem que não se faça uso politiqueiro da notícia. Uma óbvia contradição. Ademais, numa provocação sem sentido à inteligência e à memória popular, querem transparecer que as alas políticas que lhes são opostas não desejam o curso de medicina no município, só porque, segundo alegam, o investimento seria do PMDB e a conquista se deveria à incansável e persistente luta dos correligionários do “Índio” da Lava-Jato. Esta é a narrativa que desejam construir e que, gostem ou não desta exposição, passa longe da verdade.

Qual é o fator-chave sobre o qual se ergue qualquer possibilidade de Quixadá receber um curso de medicina? São as idas para fazer fotos em Brasília? São os pedidos feitos por este ou aquele político quixadaense? Quer queiram reconhecer ou não os opositores políticos de Luís Inácio Lula da Silva, é o próprio Lula tal fator-chave. Guarde sua indignação anti-lula e continue a leitura.

Quixadá pertence à história do Brasil. A história do ensino superior neste município, por sua vez, está inserida num contexto mais amplo que, por uma questão de honestidade intelectual, não deve ser desconsiderado. Mas nem isolando Quixadá deste contexto maior a paternidade de um eventual curso de medicina se deveria ao PMDB ou a seus filiados. Explico.

HISTÓRIA PARA REFRESCAR A MEMÓRIA

Antonio Carlos Pereira Martins, quando era Professor Titular de Urologia na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), em 2002, escreveu um artigo contando detalhes da história do ensino superior no Brasil. Durante cinco séculos, como ficou claro, o ensino superior estava no horizonte de perspectivas apenas daqueles que pertenciam à elite econômica e social do país. “A elite detentora do poder não vislumbrava vantagens na criação de universidades”, escreveu o professor.

Deem a versão que quiserem dar, mas o mínimo de raciocínio honesto reconhecerá que isto mudou com Lula na presidência, quando se iniciou um ousado e inédito esforço governamental pela interiorização do ensino superior no Brasil. Programas sociais do governo Lula garantiram que até mesmo jovens muito pobres tivessem acesso gratuito à universidade, e um amplo processo de inclusão, levado avante em diversas frentes, permitiu que no chão das universidades públicas e privadas pisassem tanto os sapatos dos filhos bem-nascidos como os chinelos dos pobres.

Quixadá tem em sua mais recente história do ensino superior, duas vertentes principais: uma com as iniciativas de Dom Adélio Tomasim, cujo trabalho estabeleceu em 2002 a Faculdade Católica Rainha do Sertão (hoje Universidade Católica), inciativa privada, e, no âmbito dos investimentos públicos, a interiorização do ensino superior nos governos Lula, com o estabelecimento da Universidade Federal do Ceará e do Instituto Federal do Ceará em Quixadá.

Válido, também, é reconhecer que a maior parte dos estudantes de famílias menos abastadas na Faculdade Católica só tiveram seu ingresso naquele estabelecimento privado assegurado por dois fatores: o Programa Universidade Para Todos (Prouni), de Lula, e o avanço econômico brasileiro na era Lula, com a mais ampla distribuição de renda já vista na história do país, o que permitiu à muitas famílias a capacidade para bancar as despesas do ensino superior de seus filhos.

Antes destas iniciativas públicas e privadas, quem quisesse se formar como médico ou advogado, por exemplo, tinha que se mudar de Quixadá. Tinha que sair do Sertão. Tinha até que sair do Nordeste. Vários médicos com mais experiência e que hoje atuam em Quixadá só se formaram porque suas famílias ricas tiveram as condições para mantê-los fora, coisa que estava muito além da capacidade dos mais pobres. 

A tradição de algumas famílias em formar médicos entre os seus nada mais era do que um sintoma da profunda desigualdade social que grassava no Brasil, com poucos muito ricos e com muitos muito pobres. Antes de Lula, o sol de vários cursos superiores só brilhava para o filho do doutor ou do coronel, e longe do Sertão.

CONTEXTO DECISIVO

É só por causa deste contexto decisivo de investimentos na interiorização do ensino superior, e só por causa dos programas criados nos governos Lula, iniciando um processo de expansão inédito da educação no país, e que tanto beneficiou Quixadá, tornando-o um pólo universitário, que podemos contemplar hoje qualquer perspectiva de Quixadá receber um curso de medicina.

Pelo que sabemos até agora, o curso será privado. Forçoso é reconhecer que os menos avantajados financeiramente só entrarão nele mediante bolsas integrais ou parciais ofertadas pela própria instituição ou pelos programas governamentais. Com o corte de investimentos na educação superior feito pelo governo de Michel Temer, o PMDB aparece, não como amigo, mas como inimigo dos mais humildes que sonham em cursar medicina em virtude daquilo que Lula iniciou.

O universo ideal das elites continua nojento: ricos cursando medicina e pobres aproveitando o “investimento do século” para vender cachorro-quente nas entradas do prédio. Se esta agenda do PMDB não for derrubada e o Brasil não voltar a ter um governo que se preocupe com as camadas mais pobres da população, os filhos da classe média e os filhos dos mais pobres terão dificuldades crescentes para sonhar alto.

Gooldemberg Saraiva é editor do Diário de Quixadá 


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