O que realmente diz o plano estadual sobre vacinação dos trabalhadores da saúde?

Pressionada pelo clamor popular e pelo desagrado manifesto nas redes sociais e em emissoras de rádio, por parte de pessoas que tem desaprovado a maneira como a vacinação tem sido realizada em Quixadá, a prefeitura publicou nota atacando os veículos de comunicação que veiculam cobranças justas a administração pública.

Segundo a nota, “veículos de comunicação que num período de pandemia como o que atravessamos, se prestam a fazer um desserviço como tal, invocando uma onda de revolta na população com base em informações distorcidas, promovem um verdadeiro atentado à boa fé e ao responsável e criterioso trabalho que vem sendo desenvolvido em Quixadá. Estes, não merecem gozar de nossa atenção nem de nosso respeito.”

A prefeitura tentou explicar a vacinação de profissionais de Educação Física que não atuam diretamente no combate à Covid-19 afirmando que, segundo o Plano Nacional de Operacionalização da Vacina, estes profissionais são qualificados como trabalhadores de saúde e que, assim, teriam prioridade. Vamos aos fatos.

Os profissionais de Educação Física são, de fato, trabalhadores da saúde. Mas não basta ser profissional de saúde para ter direito à vacina nesta primeira fase das aplicações. E isto vale não apenas para profissionais de Educação Física, mas para qualquer outra categoria de trabalhadores da saúde. Um médico, por exemplo, que não atua na linha de frente, também não tem direito, neste momento, de receber a vacina. Mas onde isso está dito no plano da Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa)?

Fizemos os seguintes recortes para mostrar quais trabalhadores da saúde devem ser vacinados nesta primeira fase, segundo o plano estadual:

Página 11 do Plano Estadual.

Note, antes de qualquer coisa, que o Estado define que os profissionais citados na lista são aqueles que “atuam em estabelecimentos de assistência e vigilância à saúde (hospitais, clínicas, ambulatórios, laboratórios)”. 

Qual a sequência de prioridade neste grupo? Confira.

Página 7 do Plano Estadual.

Perceba, aqui, que atuar diretamente no combate à Covid-19 ou em estabelecimentos de assistência hospitalar é requisito fundamental estabelecido no plano. Mas quais são, exatamente, estes trabalhadores? O plano do Ceará também define. Confira nesse outro recorte:

Página 7 do Plano Estadual.

Novamente, perceba como atuar diretamente com pacientes ou na rede de assistência médica e hospitalar é requisito fundamental para receber a vacina nesta primeira fase.

Mas, agora, chegamos ao ponto mais importante. Atingida a vacinação de todos os trabalhadores de saúde da linha de frente, o que deve ser feito com as doses restantes? Pode-se abrir para outros profissionais de saúde que não atuam na linha de frente? Vamos ao que diz o plano estadual.

Está lá na página 9 do documento: “O município que tiver alcançado pelo menos 90% de cobertura de vacinação dos profissionais da linha de frente poderá utilizar as doses restantes para iniciar ou dar continuidade a vacinação de idosos de 75 anos e mais, segundo as prioridades elencadas acima.”

O que fica claro? Depois dos trabalhadores da linha de frente que atuam diretamente no combate à pandemia, a prioridade é, não de trabalhadores de saúde que não atuam na linha de frente, mas dos idosos com 75 anos ou mais. De fato, que sentido faz vacinar nesta fase jovens saudáveis só porque são trabalhadores de saúde, mas que não atuam na linha de frente contra a Covid-19, enquanto milhares de idosos em situações de altíssimo risco e fragilizados por diversas comorbidades, ficam para trás?

O que a prefeitura deveria fazer, neste momento, era uma grande autocrítica, não atacar os veículos de imprensa. O que está em jogo são vidas – vidas de pessoas idosas, que já contribuíram muito com a sociedade e que merecem mais respeito – não votos ou curtidas nas redes sociais. É por eles, não em desfavor desta ou daquela categoria profissional, que a imprensa cobra mais bom senso, mais responsabilidade e eficiência na aplicação das vacinas. Por favor respeitem quem consegue interpretar um texto simples, como é o caso do Plano Estadual de vacinação.


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