Neymar chora após o jogo entre Brasil e Costa Rica.

Não sou fã de futebol, nunca fui. Aliás, acho a paixão por futebol um problema, como todas as paixões.

Acho esquisito que, num mundo tão cheio de mazelas, com tanta desigualdade social, sejam gastos bilhões na construção de estádios e na realização de campeonatos, com jogadores hospedados nos hotéis mais luxuosos e ganhando salários astronômicos – tudo com a contribuição de cada torcedor que se filia a clubes, que paga ingressos caros, enfim – um mundo de luxo construído a partir da paixão das pessoas.

É pura utopia imaginar um mega-hospital construído a partir da paixão de um povo, pois o povo não tem paixão alguma pela caridade. O entretenimento vem antes de qualquer coisa. O mundo que se conserte sozinho!

Apesar de tudo o que escrevi acima, acho contraditório e perigoso o que está sendo feito hoje com o Neymar Jr. nas redes sociais.

É serio, acho isso!

Sei que ele é rico, que pode pagar os melhores psicólogos para ajudá-lo a superar qualquer problema que ele venha a ter devido ao bombardeio de piadas que se fazem em torno dele. Ele ganha um salário altíssimo, mas ainda é um ser humano como qualquer outro. Está sujeito, como cada um de nós, a uma depressão decorrente do cyberbullying intenso que se faz com ele por causa de seu desempenho.

Já se imaginaram no lugar dele? Já tentaram sentir o peso da responsabilidade que ele carrega, da cobrança que ele sente sobre sua pessoa? Pouca gente se coloca no lugar do jogador que erra o chute numa cobrança de pênalti, mas milhares o condenam de forma impiedosa.

Acusam o Neymar Jr. de tudo, até de fingir emoções e de chorar sem vontade, sem contar com as piadas sobre seu novo corte de cabelo.

As celebridades em geral sofrem muito. O que vemos delas na mídia, todo o glamour em que parecem constantemente viver é uma ilusão produzida pelo comércio. Sua vida privada pode ser uma realidade bem diferente do rosto sorridente divulgado pela mídia. Um bom exemplo disso foi Marilyn Monroe, cuja imagem alegre e feliz escondia a verdadeira face de uma pessoa atormentada emocionalmente, que dependia de barbitúricos para tirar um simples cochilo.

O status de celebridade é um conceito recente na história da humanidade. Surgiu apenas no século passado, com o advento da indústria do entretenimento (cinema, música, televisão, campeonatos mundiais). As celebridades do século passado, entretanto, não sentiram o poder avassalador da internet, ou melhor, das redes sociais, não lidaram com a crueldade humana elevada à estratosfera. Foi-se o tempo em que um astro do showbusiness ia às lágrimas por causa de um comentário maldoso publicado numa revista de atualidades. Aliás, o máximo que se lia de crítica a respeito de um famoso era através de revistas ou de colunas de jornais, em textos devidamente assinados. Até hoje os programas de tevê que tratam de celebridades são bastante comedidos em seus comentários negativos e, mesmo assim, chegam a render noites insones ao ilustre afetado. Nos anos 1970, a estrela de cinema Joan Crawford decidiu não sair mais de casa para não ser mais fotografada, depois que uma foto que desfavorecia a beleza da veterana deusa das telas foi publicada num jornal. Lady Diana, a mulher mais publicamente fotografada de seu tempo, morreu num acidente de carro tentando fugir dos fotógrafos ávidos por mais uma imagem que expusesse a vida privada da princesa.

Hoje, com as redes sociais e múltiplos canais de difusão de mensagens, com os recursos de edição de vídeos, áudios e imagens e, sobretudo, com o anonimato sob o qual se protegem os detratores, a vida de uma celebridade pode ser um inferno.

Famosos não são superseres. Ao contrário! Muitos deles desenvolveram problemas gravíssimos decorrentes da superexposição, das cobranças, da dificuldade de receber críticas, da ameaça da perda da fama… Dependência de drogas para dormir, transtornos de personalidade e suicídio são fatos comuns entre os famosos.

O cyberbullying que tanto nos faz rir tem um efeito completamente oposto sobre aquele que é o tema desse novo tipo de agressão.

As celebridades de hoje têm de saber lidar com cyberbullying, que, quando se trata de “pessoas públicas” (existe isso?), não é considerado como tal. Mas não deixa de ser! A internet elevou a capacidade de ser mau a níveis muito altos. A ideia que se tem é que de uma celebridade se pode falar tudo! Sua vida privada, sua honra, seus defeitos, suas fraquezas, tudo dela é público e pode virar piada. Os confeccionadores de memes não têm limites. Não respeitam a história de ninguém, não poupam idosos, falecidos, adolescentes, deficientes físicos, nem crianças. Ao contrário do comentário irônico e maldoso do colunista de jornal, os memes se espalham vertiginosamente pelas redes sociais em questão de minutos, e seu autor dificilmente, senão nunca, será identificado.

Eu estava achando graça nas piadinhas contra o Neymar, mas elas já atingiram o meu limite. Meu bom senso não permite mais rir dos memes que se criam a cada novo jogo.

Deus proteja esse rapaz! Ele pode ser vítima (se já não o for) do mundo em que ele tanto desejou entrar.

Jards Nobre é professor, escritor, membro da Academia Quixadaense de Letras e escreve para o Diário de Quixadá.

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