As instituições privadas que oferecem a educação básica se autodenominam “colégio”, não importando se ofertam o ensino médio ou não.

Sim, estou partindo da pressuposição de que há, na educação básica do Brasil, uma distinção entre “escola” e “colégio” que não é apenas lexical, mas institucional. Embora se tente precisar o que vem a ser uma escola e o que vem a ser um colégio, na prática, “escola” é uma instituição pública e “colégio” é uma instituição privada. Quase como: “escola” é para pobre e “colégio” para rico. Assim, raramente você vê uma instituição de ensino particular com a palavra “escola” em sua fachada, bem como nunca vê uma escola pública ter a palavra “colégio” em seu nome. Se tanto a instituição pública quanto a privada oferecem o mesmo nível de ensino (Infantil, Fundamental, Médio), por que receberem designações diferentes simplesmente pelo fato de serem públicas ou particulares?

Mesmo que recebessem a mesma designação, há diferenças muito grandes entre as “escolas” e os “colégios” que precisam ser reduzidas para que tenhamos uma sociedade mais justa e menos desigual. Todas essas diferenças são decorrentes tanto da forma como o Estado, o mantenedor das “escolas”, trata a educação no país quanto da forma como o povo brasileiro vê a coisa pública. Primeiramente, nas “escolas”, os funcionários são mantidos pelo poder público, logo, conforme o pensamento de nosso povo (que precisa ser mudado nesse ponto), não há patrão na coisa pública e não há o risco da demissão, estando os funcionários mais livres para proceder conforme o que lhe for mais cômodo. Qualquer brasileiro que tenha estudado em escola pública conheceu alguma zeladora desleixada com a limpeza, alguma merendeira abusada na hora de servir a merenda, algum professor faltoso ou que dava aulas sem planejamento, algum diretor omisso e desorganizado. No “colégio”, tais comportamentos não são tolerados e o risco de demissão é alto. Então, todos os funcionários dos “colégios” procuram “andar na linha” conforme exige a instituição, pois a clientela é impiedosa e intolerante com quem não lhe agrade. Por que a clientela das “escolas” não age da mesma forma, uma vez que também paga, através dos impostos, todos os funcionários e tem direito a um serviço de qualidade?

Escolas públicas nem sempre oferecem boas condições aos estudantes.

Outra diferença, que está relacionada com a primeira, é que, no “colégio”, há uma linha didático-pedagógica definida: praticamente todos os professores dão aula seguindo a mesma tendência, enquanto nas “escolas”, costuma-se verificar uma diversidade muito grande de atitudes didáticas e pedagógicas, havendo mesmo posturas opostas que prejudicam e confundem os alunos: o que é antiético para um professor é tolerado por outro; se um exige demais, há outro que nada exige; se um é atencioso com a frequência, o outro nem preenche o diário direito; se um é pontual e dá a aula até o último minuto, o outro chega atrasado e “solta” mais cedo; se um exige que todas as cadeiras estejam em fila, há outro que não liga para isso…

Nas “escolas”, é mais frequente a troca da aula por atividades lúdicas ou extraclasse, realizam-se mais gincanas, feiras, aulas de campo, campeonatos, comemorações de datas históricas, atividades que, em seu planejamento e realização, consomem o tempo reservado para as aulas convencionais. É comum levar os alunos para um auditório para assistir a uma palestra que tomaria apenas duas horas-aula e, encerrada a palestra, os alunos são liberados para casa, em vez de retornarem à sala de aula e aproveitarem o restante do turno. Já nos “colégios”, a aula em sala, com o professor à frente “explicando a matéria”, é posta como prioridade, como algo sagrado que nada pode atrapalhar. Raramente um “colégio” realiza uma feira ou atividade extraclasse. As secretarias que administram as “escolas” exigem o desenvolvimento de projetos e atividades que não sejam as aulas e vibram quando as “escolas” realizam feiras mobilizando outras “escolas”, eventos dos quais grande parte dos alunos não participa, aproveitando o tempo “livre” para andar pela cidade ou para ficar em casa vendo TV. Enquanto nos “colégios”, o professor e os alunos têm seus pedidos de aula de campo ou de realização de atividades paradidáticas frequentemente negados pela direção.

Nas “escolas”, o número de alunos por turma fica em torno de 40, enquanto nos “colégios” esse número é bem menor. Nas “escolas”, sobretudo nas que oferecem o Ensino Médio, os alunos utilizam livros didáticos aprovados pelo MEC, dinâmicos, interativos, coloridos, com a proposição de atividades diversificadas, enquanto nos “colégios” costumam-se usar apostilhas que compilam o conteúdo tradicional e simulam provas do ENEM e dos vestibulares mais disputados do país. Enquanto os alunos de Ensino Médio das “escolas” têm cinco aulas por turno, os dos “colégios” têm seis, rigorosamente cronometradas. E, finalmente, quanto à infraestrutura, as “escolas”, em sua maioria, estão muito atrás dos “colégios” em se tratando de conforto, tecnologia, limpeza e segurança, e não é raro haver “escolas” cujas aulas foram suspensas porque o teto corre risco de desabamento ou porque falta água, e milhares de “escolas” no país encerram as aulas mais cedo todos os dias por causa da criminalidade da área em que estão situadas.

Apesar de todas as diferenças, alunos de “escolas” e de “colégios” se submeterão ao mesmo processo seletivo para ingressar nas universidades públicas e serão tratados, nas provas, como se estivessem em pé de igualdade. Se um aluno de uma “escola” consegue a nota máxima no exame criado e aplicado pelo governo (ENEM), vira notícia de jornal, enquanto os “colégios” disputam entre si o maior percentual de alunos aprovados nos cursos de Medicina. Um detalhe importante: os secretários municipais de educação, diretores e coordenadores de “escolas” discursam em defesa da qualidade da educação pública, mas mantêm seus filhos nos “colégios”!

Será que as alardeadas mudanças no Ensino Médio reduzirão as diferenças entre as “escolas” e os “colégios” ou as intensificarão? Enquanto houver esse apartheid, que está claro até na designação das instituições de ensino básico do país, jamais teremos uma nação justa, e um aluno de “escola” com nota 1000 na redação do ENEM sempre será notícia porque sempre será um caso raro.

Jards Nobre é professor, escritor e escreve para o Diário de Quixadá semanalmente.


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