O amor é como um rio caudaloso cujas nascentes que o formam são como as expressões multiformes desse sentimento que inaugurou o Mundo no qual estamos inseridos.

É assim que, o dilatar do amor entre amigos, entre namorados, presente entre irmãos de sangue e de coração, vivamente erigido como pilar da mais nobre relação na Terra que é a de uma mãe e um filho, também encontra lugar de morada entre pessoas que nunca se viram, mas que são pegas pela força do sentimento que se reveste de vários matizes e muitas vezes até rabelaisiano.

Montana mantinha uma ótima relação de amor com seu filho Fred que se fortaleceu ainda mais desde a morte de sua esposa há três anos. Os cuidados com a formação e segurança do rapaz eram constantes e assim o fazia tentando compensar a falta que o jovem sentia pela partida inesperada da mãe. Fred, iniciante no descobrimento dos caminhos e labirintos da vida, aos dezesseis anos, vivia com seu pai e sua avó materna.

Fred, que ao perder sua mãe perdera também sua maior cúmplice, vivia numa mansão de frente para o mar da primeira capital brasileira. Seu pai, Montana, era então um senhor de cinquenta e cinco anos, aposentado de seu cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Assim como acontece com as águas de um rio que por vezes se turvam pela força da correnteza, o amor entre pai e filho, pela primeira vez encontrara uma barreira: Montana descobriu que Fred era gay e que havia falado isso para algumas pessoas de sua família e para alguns amigos mais íntimos.

No jornal televisivo daquela noite de quinta-feira uma reportagem informou que somente no ano de 2017, no Brasil, 445 pessoas foram assassinadas simplesmente por serem gays. O fato era realmente chocante, mas não para Montana:

— Bem feito! — Disse Montana ao ouvir sobre as mortes violentas por homofobia.

Nesse momento, Fred vai passando pela sala onde o pai está e estremece quando este o chama de forma brusca e ríspida. O garoto, obediente, vai ao encontro do pai que o toma com força pela gola de sua blusa e pegando a cabeça do filho aponta para a notícia que estava vendo pela tevê e indaga:

— É isso meu filho? É isso que você quer pra sua vida? Você quer acabar morto como esses vagabundos? — Vociferou Montana referindo-se aos gays assassinados.

Fred, assustado, entendera com aquela atitude abrupta do pai que ele, então, ficara sabendo de sua condição. Esperava que a amizade e amor que os unia os fizesse ao menos respeitar, mesmo que não concordando com seu comportamento, mas acolhendo um filho que não deixa de sê-lo por tal condição.

— Me solta, pai! O senhor está me machucando! — Chorando, Fred suplicou. Ao que o pai joga o filho sobre o sofá que permanece aos prantos. Montana sai de casa batendo forte a porta, sendo esta, uma metáfora imperativa  para o fechamento do coração do pai ao filho.

A Sociedade Brasileira estava se tornando no Mundo uma sociedade das que mais odeiam os gays e uma das que mais os matam. Montana, era então, típico cidadão de bem, religioso, pai de família, mas que mediante a revelação de Fred passara a demonstrar seu caráter filaucioso e seu modo horrípilo de tratar as pessoas quando estas não agem de acordo com o que ele acredita. A vítima da vez era seu próprio filho e com isso o seu amor estava em xeque.

Todos os domingos Montana com um grupo de amigos de sua mesma faixa etária se encontram na orla da praia para jogarem vôlei. Há dois domingos ele e seus amigos observavam que um homem de mais ou menos quarenta anos, alto, forte, cabelos longos e grisalhos, com braços totalmente tatuados passeava de mãos dadas com um jovem magro, cabelos ruivos e que sempre portava óculos escuros. Os dois passavam sempre por ali, de mãos dadas, perto de onde Montana e seus amigos faziam as partidas de vôlei.

Instigados por Montana, seus amigos quando viam esses dois homens passarem os xingavam de várias palavras de baixo nível, entre elas, eram  chamados de “bichonas”. Eles ouviam, tinham dúvidas se era com eles e seguiam seu caminho, sempre sorridentes.

Cada vez mais Fred se mantinha isolado em casa. Não saía mais com seus amigos, faltando sempre às aulas da faculdade, não tendo mais a mesma relação de amizade com o pai que passara a tratá-lo com frieza. Até mesmo as refeições faziam separados. Sua avó tentava animá-lo e até mesmo a defender Montana colocando para Fred que seu pai era de uma outra geração de mente mais fechada.

— Vó, ele é meu pai! Ele deveria me amar como sou… parece que o pai amigão que sempre tive morreu… esse daí, parece que esqueceu que sou seu filho. Só me olha com desdém. Me trata como se eu tivesse uma doença contagiosa. Nem para a igreja ele me leva mais. Diz que tem vergonha das pessoas olharem pra ele e eu juntos… tô muito triste… — desabafou Fred que na maioria das vezes ficava sozinho em seu quarto.

No domingo seguinte Montana amanheceu respirando rancor. Já na praia, antes da partida combinara com seus amigos que dariam uma lição nos dois homens que passavam de mãos dadas.

— Vejam meus amigos! Lá vem aqueles condenados. Esse bairro é formado de famílias decentes. Não vamos deixar nossas crianças verem essa aberração por aqui. Pra cima deles! — Disse Montana ao chamar seus amigos para um ataque covarde.

Quando o homem tatuado e o jovem ruivo mais uma vez, e de mãos dadas, passavam pela praia, os amigos de Montana, enquanto este só observava, atacaram os dois homens com chutes, socos e vários xingamentos. O jovem ruivo caiu na areia da praia desacordado e com isso o homem tatuado gritou em desespero:

— Parem com isso! Não façam isso com meu filho! Além de não ter feito nada de errado pra vocês o atacarem assim, ele ainda é cego!

Ao ouvirem a palavra “filho”, então eles pararam de bater em ambos. Montana que se mantinha afastado encheu-se de vergonha e culpa por incitar ódio a dois homens que ele julgava serem gays e que sempre andavam de mãos dadas porque o rapaz era cego e estava na costumeira companhia do pai que fazia questão de levá-lo ao seu passeio preferido de todos os domingos.

Caindo em si, Montana lembrou de todas as coisas boas que já tinha vivido com seu filho Fred, das boas conversas, das viagens… Percebeu, então, o quanto estava com saudade de ser pai do seu filho.

“Um pai não pode odiar seu filho por ele ser gay. Isso não é humano… eu ia cometendo um crime matando um pai e um filho que estavam sendo apenas o que são: pai e filho… que vergonha!”, refletiu Montana.

“Você é o melhor pai do Mundo”, Montana lembrou do que sempre ouvia de seu filho. Comovido e arrependido correu para casa decidido a abraçar bem forte seu filho e lhe pedir perdão.

“Pai, quando eu crescer quero ser igual a você”, se lembrou das palavras do filho enquanto subia com rapidez a escada rumo ao quarto de Fred. Ao abrir a porta, seu mundo desabou: seu filho enforcara-se.

Montana agora convivia com a pior das formas de se morrer: lentamente morria com o remorso dos covardes, o remorso dos que deixam de amar quando prendem o outro no cárcere do seu ódio.

SOBRE O AUTOR: Alexandre Félix. Pós-Graduado em Linguística Aplicada na Educação (Universidade Cândido Mendes). Graduado em Sociologia, em Secretariado e em Letras (Português) e Graduando em Jornalismo. Contribui semanalmente com o DQ. 

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