Conto: Fogo e Cinzas – Por Alexandre Félix

Não existe nada mais íntimo do que fogo e cinzas. É como destino e futuro, intrínsecos, presos em essência, mergulhados na mesma verve.

Assim foi o encontro de Betty e Saulo.

Conheceram-se na primeira noite de carnaval: às dezoito horas deram o primeiro beijo e à meia-noite ela o disse:

— Não posso mais viver sem você!

Palavras típicas do fogo de amor urgente.

No segundo e terceiro dias de carnaval ele disse que ela era a mulher da vida dele. Ela prometeu fidelidade eterna. Ele quis uma prova de amor. Ela confiou, então.

Durante o dia, ela ligou para ele umas trinta vezes: queria saber se ele tinha dormido bem, se havia tomado café e que horas iriam se encontrar na piscina.

Após um dia de “love story” na piscina do clube da cidade, ambos foram para suas casas. Ela mandou mensagem para ele perguntando se havia chegado bem. Ele disse que sim, mas que já estava morrendo de saudades, acrescentando que chegava até doer o peito de tanta saudade da amada.

— Eu te amo Saulo! — disse Betty numa ligação e também por mensagem.

— Você é a mulher da minha vida Betty! — se declarou Saulo enviando mensagem sonora tendo como fundo musical uma balada romântica internacional.

No último dia de carnaval, ela mudou o status de sua rede social e marcou Saulo: “Namorando”. Receberam parabéns dos amigos, quinhentas curtidas e muitos votos de felicidade ao novo casal.

Ele postou uma foto aos beijos com ela em sua rede social com a legenda: “Te conheci agora mas parece que já nos conhecemos a vida inteira. Te amo, morena!”

Na quarta-feira de cinzas, ela acordou quase ao meio-dia. Ela e Saulo vararam a madrugada. Betty procurou seu celular e quando foi responder a uma mensagem de amor de Saulo seu número estava bloqueado. “Deve ser engano”, pensou Betty.

Em seguida, ela foi na rede social do amado e procurou o perfil dele e não mais achou. Desesperou-se. Ligou no número do celular de Saulo. A mensagem eletrônica avisou: “esse número não existe.”

Betty se convenceu, então, que seu romance fora um amor de carnaval. Desses, onde se encontra “o amor da sua vida”, mas que muitas vezes é apenas fogo de palha: quando queima vira cinzas…

Assim como aquela quarta-feira, o coração de Betty estava em cinzas.

SOBRE O AUTOR: Alexandre Félix. Pós-Graduado em Linguística Aplicada na Educação (Universidade Cândido Mendes). Graduado em Sociologia, em Secretariado e em Letras (Português) e Graduando em Jornalismo. Contribui semanalmente com o DQ. 


Site desenvolvido por Agência Clig