Bolsa Família, que Bolsonaro aponta como sustento de vagabundo, já injetou mais de R$ 200 milhões no comércio de Quixadá.

O Deputado carioca Jair Bolsonaro, que será homenageado neste sábado, 07, em Quixadá, no Sertão Central do Ceará, com um outdoor na CE-060, costuma relacionar o Bolsa Família, programa social de transferência de renda a famílias pobres, a vantagem dada a quem não quer trabalhar, coisa de vagabundo.

Tão recentemente quanto em 2016, em entrevista concedida ao portal R7, o político chegou a dizer que o programa social é um ‘investimento em acomodação’.

“O Bolsa Família é uma mentira. No Nordeste você não consegue encontrar uma pessoa pra trabalhar na tua casa, porque se esse pessoal for trabalhar perde o Bolsa Família”, disse Bolsonaro, revelando a imagem evidentemente equivocada, para não dizer preconceituosa, que ele guarda do povo nordestino que, sim, é trabalhador e tem, na verdade, sido historicamente negligenciado pelos governos brasileiros.

O nordestino quer trabalhar, quer indústria, quer comércio forte, quer ter um padrão de vida digno, viver do seu suor e não depender de programas governamentais. O nordestino não é preguiçoso. É, de fato, um povo forte, capaz de enfrentar desafios gigantescos, um clima hostil, a seca, a desigualdade regional e as desvantagens da miséria que lhe foi reservada por governos nacionais que privilegiaram escancaradamente o desenvolvimento do centro-sul do país.

No contraponto da fala do deputado carioca, o comércio de Quixadá e a economia, de modo geral, deste município, tem uma grande dívida com o Bolsa Família.  Foi graças à transferência de renda proporcionada por ele que uma faixa expressiva da população humilde teve acesso a uma margem mais ampla de poder de compra e pôde dar sua contribuição para girar a roda da economia, tornando-a mais rápida e forte e, óbvio, dando a tantos a oportunidade de empreender com foco no aproveitamento de quem antes não podia comprar e, depois do Bolsa Família, começou a fazê-lo.

Um caso específico nos ajuda a entender melhor. Uma das beneficiárias do programa em Quixadá, que identificaremos apenas pelas iniciais A.P. de S. (a identidade dela está no Portal da Transparência) recebia, ainda em 2004, a quantia de R$ 65 mensais. É imperioso concluir que este pequeno recurso não lhe serviu para viajar, comprar roupas de grife, ou luxar de outros modos. Mas, certamente, deu-lhe condições para acessar o comércio local. Este extra fortaleceu seu poder de compra. Para Dona A.P. de S., o valor significava muito, embora, realmente, fosse apenas uma medida de socorro. Mas quando juntamos todos os beneficiados pelo programa, o que temos? Uma enorme fatia da população humilde que passou a comprar mais no município.

Quem são, assim, os economicamente mais beneficiados com o Bolsa Família? Os comerciantes, claro! Mas e os números? Ora, aqui estão: desde que foi iniciado, o programa Bolsa Família já injetou no comércio de Quixadá a quantia de R$ 205.692.562,50. Os dados são do Portal da Transparência, do Governo Federal. Só um lunático ignorante e preconceituoso estaria interessado em apresentar o Bolsa Família como sustento de vagabundo. Mas é exatamente um homem que pensa assim que vai receber, hoje, uma homenagem em Quixadá, apoiada, curiosamente, por gente que vibra de alegria com o controverso encarceramento de Lula, aquele que deu a tantas famílias pobres a chance de sair da extrema miséria com o Bolsa Família.


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