O Brasil ficou chocado quando o Ministério da Saúde anunciou, nesta segunda-feira, 20, que o novo coronavírus havia matado 383 pessoas nas últimas 24 horas. Depois o número foi corrigido para baixo, com o argumento de que havia ocorrido um erro de digitação, e ficou em 183. Ainda assim, é muita gente.

Olhando para a letalidade do coronavírus no Brasil até esta última semana de abril, considerando os números oficiais do Ministério da Saúde, pode parecer difícil acreditar que, há menos de 20 anos atrás, precisamente no último ano de governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (2002), era a fome que empilhava corpos no Brasil. E em quantidade maior.

A série “Fome no Brasil”, exibida no Jornal Nacional de 18 a 22 de junho de 2001, é considerada uma das mais premiadas séries do telejornalismo latino-americano. Nela, o repórter Marcello Canellas e o cinegrafista Lúcio Alves viajaram por seis estados e o Distrito Federal e mostraram os rostos e as histórias das pessoas que engrossavam, naquele período, as estatísticas sobre a fome no Brasil. Para o Brasil que tinha direito a comer pelo menos três vezes por dia, a reportagem escancarou a tragédia: 300 crianças morriam todos os dias vítimas da fome e de doenças relacionadas a ela.

Assista a primeira reportagem da série:

Aquela era uma época marcada por um abismo que separava cerca de 36 milhões de pessoas que não sabiam quando seria sua próxima refeição e o resto. A desigualdade era fruto de um sistema de distribuição absurdamente injusto das riquezas do país.

Este cenário mudou quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente. Em sua primeira manifestação como mandatário eleito ao Congresso Nacional, cravou que terminaria seu mandato satisfeito se os brasileiros pudessem comer 3 vezes por dia.

Em 2014, a Organização das Nações Unidas anunciava que o Brasil estava sendo retirado do mapa da fome. Os órgãos da ONU destacaram, naquela ocasião, que a taxa de desnutrição no Brasil tinha caído de 10,7% para menos de 5% desde 2003.

Também foi assinalado que a pobreza no país tinha sido reduzida de 24,3% para 8,4% entre 2001 e 2012, enquanto a pobreza extrema também tinha caído de 14% para 3,5%.

Em comunicado oficial após o anúncio da ONU, Tereza Campello, então ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, sustentou que o feito havia sido possível “graças a um conjunto de políticas públicas que garantiram o aumento de renda dos mais pobres e um aumento da oferta de alimentos, que consolidaram a rede de proteção social”.

Entre essas políticas, a ministra citou as que permitiram “revalorizar o salário mínimo, investimentos em agricultura familiar e programas de transferência de renda”, que levaram o Brasil a superar a pobreza extrema.

É claro que, na perpétua luta de classes, a elite financeira reagiu à possibilidade de ficar ainda mais tempo presenciando a contínua ascensão dos mais pobres, que passaram a lotar aeroportos e até a se formar nas universidades, antes privilégio de poucos.

Em 2018, o Brasil voltava para o mapa da fome da ONU.

As lições da história parecem muito claras sobre como enfrentar desafios gigantes que ameaçam a saúde e a vida. Eles podem ser vencidos. Mas isto exige, no mínimo, a existência de um governo empenhado em melhorar a vida de todos, e não apenas em criar narrativas genocidas para se perpetuar no poder. A vida dos brasileiros vale mais do que a ambição de uma família de psicopatas.

EDITORIAL


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