Mariana Goés, após apanhar do ex-namorado.

O que vou contar aqui tem a intenção de ajudar outras mulheres. Infelizmente, a desagradável e perigosa experiência pela qual passei não é incomum. Falar sobre o assunto e denunciar a sua gravidade é uma atitude de coragem e eu espero incentivar outras pessoas que estão vivendo o que eu vivi a fazerem o mesmo. Meu nome é Mariana Goés, tenho 18 anos, moro em Quixadá e fui espancada por meu ex-namorado.

Mariana e seu ex-namorado, Kassio Pinheiro.

Conheci o Kassio em dezembro do ano passado [ela se refere ao empresário com residência em Quixeramobim, Kássio Robson Silva Pinheiro]. Ele tinha 27 anos, três filhos lindos e, no começo, pareceu ser um homem muito gentil e amável. Depois que começamos a namorar e até a morar juntos, porém, suas atitudes foram mudando. Ele começou a demonstrar muito ciúme, reclamava das minhas roupas e até quis proibir algumas das minhas amizades.

Lembro da primeira vez que fui agredida fisicamente. Durante uma discussão, ele me empurrou e eu caí. Na queda, bati com tanta força numa pia que acabei fraturando o pé e fui parar no hospital. Contei para alguns parentes o que havia acontecido, eles me aconselharam a pensar bem na situação, mas eu inventava desculpas na minha cabeça e decidi continuar o relacionamento. Eu tinha certeza que aquilo não voltaria a acontecer.

Em outra ocasião ele ficou tão furioso que acabou quebrando um cabo de vassoura nas minhas costas. Fui parar no hospital outra vez. Inventei a história de que havia caído e me machucado. Naquele episódio, lembro que o Kassio chorou, disse que estava muito arrependido e que outra agressão jamais aconteceria de novo. Não é fácil para quem olha de fora entender o que se passa na cabeça e no coração de uma pessoa que é vítima em um relacionamento abusivo. A verdade é que a própria vítima não consegue enxergar a situação com clareza. Eu acreditei no arrependimento dele e continuamos a namorar.

Marcas de agressão sofridas com um cabo de vassoura, segundo Mariana.

Eu parei de estudar quando comecei a trabalhar para ele. Ele tem uma vidraçaria em Quixeramobim. Kassio me dizia que todas as suas namoradas haviam trabalhado ali e que eu precisava trabalhar com ele também. Aquilo mexia comigo. No começo eu até achava carinhoso que ele quisesse me dar um lugar na sua vida, mas depois de tudo fui perceber que até nisso havia uma boa medida de abuso. Mas o pior estava por vir.

“QUASE MORRI”

Finalmente abri os olhos em relação ao comportamento abusivo no qual eu estava vivendo. Mas por pouco não foi tarde demais. Acreditei no falso arrependimento do Kassio e por isso quase morri.

Aconteceu no sábado, dia 28 de outubro. Eu estava no aniversário do meu pai e Kassio estava bebendo em outro lugar. Ele me pediu para ir para a casa do pai dele, pois queria dormir lá. Eu fui. Mas quando cheguei lá ele pediu para colocar cervejas numa sacola porque ele me levaria para dormir com ele em sua própria casa. Eu disse que não levaríamos cervejas, pois ele já estava bêbado e já havia me agredido nestas condições. Pronto. Bastou esta negativa para Kassio explodir em fúria.

Mariana Goés, após agressões.

Ele começou a me esmurrar com muita força e eu simplesmente não conseguia me defender por causa da enorme diferença de força. O irmão dele teve que tirar ele de cima de mim. Eu disse, então, que não iríamos a lugar algum. Ele voltou a me esmurrar. Depois disto eu não conseguia mais nem falar. Naquela noite tive duas convulsões e desmaiei várias vezes. Meu irmão foi avisado sobre o que tinha acontecido e ele foi me buscar. Não podíamos dizer para o meu pai, pois as consequências poderiam ser as piores possíveis. Era a noite do aniversário dele. Se soubesse que a filha havia apanhado daquele jeito, nem sei o que poderia ter acontecido.

Depois de me agredir, Kassio foi embora. Não prestou socorro algum.

No domingo pela manhã eu e minha mãe procuramos a Delegacia de Polícia Civil em Quixadá, onde registramos um Boletim de Ocorrência e abrimos uma queixa crime contra o Kassio. Também fui realizar exame de corpo de delito no IML de Quixeramobim. Pedi para ir para o hospital, pois estava sentindo muitas dores. No hospital fiz exame de Raio X e o médico ficou preocupado. Pediu que eu fizesse uma tomografia em Fortaleza.

Exame demonstra fraturas nos ossos da face de Mariana Goés após agressões.

Já no hospital em Fortaleza, uma consulta ao traumatologista constatou várias fraturas nos ossos da minha face. Resultado? Tive que passar por um complexo procedimento cirúrgico que custou R$ 8 mil. Na cirurgia, foram implantados nos ossos do meu rosto quatro placas e vinte parafusos.

A pessoa que devia me amar e cuidar de mim havia me colocado naquela situação.

PRESO E SOLTO UM DIA DEPOIS

Kassio foi preso na segunda-feira, dia 13, mas na terça-feira, dia 14, já havia sido solto. Uma audiência de custódia estabeleceu algumas restrições e ele aceitou. Entre as restrições está a ordem de não se aproximar mais de mim e nem dos meus familiares. O processo contra ele, porém, ainda continua e em breve ele será julgado pelo que fez. Espero que seja feita justiça.

Mais do que machucar fisicamente, apanhar resulta em humilhação e desequilibra a gente emocionalmente. Deixa marcas na alma e um prejuízo psicológico que eu não sei quando será superado. Aproveitar-se desta forma brutal da fragilidade física de alguém é um ato de covardia que sociedade alguma deve tolerar.

Algumas pessoas ainda tiveram a ousadia de me pedir para retirar a queixa contra o Kassio, dizendo que foi um momento de raiva, e que ele não voltaria a fazer isto, que ele me ama e que está arrependido. Nunca tive tanta clareza de que isto não é verdade. Não existe amor em agressores.

UMA EXPERIÊNCIA RUIM E MUITO APRENDIZADO

Mariana Goés, durante período de internação hospitalar.

Entendam isto, mulheres: Eu acreditei que ele não me bateria de novo e quase morri. Não aceite apanhar de quem deveria cuidar de você.

Homem quando vai cometer abusos dá sinais logo no começo. Não ache fofo quando ele diz que você não pode usar aquele short porque está curto. Ou quando ele te empurrar, não tolere isto achando que foi uma única vez. Não, ele vai fazer de novo. Quando houver a primeira agressão e ele chorar e prometer que não vai se repetir, não acredite! Ele não está arrependido. Eu acreditei e quase morri!

Homens assim fazem uma vez, duas, três e continuam fazendo até quando a gente permitir. É muito difícil passar por tudo o que passei. É constrangedor entrar numa delegacia falando que a pessoa que você gosta quebrou a sua cara, mas é necessário! Eu denunciei e estou lutando por justiça, mas ele ainda está livre para fazer com outras. Eu sei o quanto é cansativo lutar e sei quanta coragem é preciso para tomar uma atitude, mas não tolerem maus tratos! Denunciem!

 

 

NOTA: Toda a informação apresentada neste relato, incluindo fotografias, é de responsabilidade da autora e de sua família. O espaço deste site está aberto à defesa jurídica do acusado para quaisquer esclarecimentos que queira fazer ou contestações que queira apresentar em relação à versão acima. 


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