A Bíblia perdida

Bíblia Sagrada

Um dos candidatos a presidente do Brasil recebeu de presente, durante comício na Praça do Ferreira, em Fortaleza, um exemplar da Bíblia. Agradeceu o gesto e entregou-a a um membro do seu staff, para ser guardada. Depois continuou seu discurso para as milhares de pessoas reunidas no local.

A esta altura, todo o mundo já sabe que a Bíblia foi perdida e, no outro dia, apareceu nas mãos de um deputado opositor, notório apoiador do candidato oponente à presidência.

O evidente descuido com o presente foi rapidamente explorado politicamente, com alegações de que o candidato que perdeu o exemplar da Bíblia não teria por ela nenhuma consideração.

Mas não é sobre esta Bíblia perdida que este texto vai tratar. Perder um objeto presenteado durante a correria de uma campanha presidencial, no meio de uma multidão, parece deselegante, mas não diz nada sobre o preparo de alguém para dirigir um país com 200 milhões de habitantes.

Muito mais importante do que o objeto em si – que nada significa, pois envelhece e desaparece -, a mensagem contida na Bíblia não pode ser perdida. O espírito de suas palavras, especialmente o espírito das palavras contidas nos Evangelhos de Jesus Cristo, não deveriam ser perdidos por aqueles que professam ser discípulos seus. Infelizmente, porém, é o que tem acontecido.

Não se está, aqui, tentando julgar ninguém. Reconhecer-se nascido em pecado é consequência lógica de quem faz a leitura do livro sagrado do Cristianismo. Aliás, foi esta lógica que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche combateu tão exaustivamente em sua obra, sempre que ela toca no pensamento cristão.

De fato, do ponto de vista da fé cristã todos estão na mesma condição e precisam da redenção que só se encontra na aceitação do sacrifício de Cristo no Calvário. Isto parece ser ponto comum entre as diversas denominações que se dizem dedicadas à mensagem dos Evangelhos.

O perigo real para cada crente no Senhor Jesus não está associado à maneira como ele trata o livro, mas à maneira como ele trata a mensagem contida nele.

Tome, por exemplo, o caso dum espanhol chamado Julián Hernández. Segundo o livro História do Martírio Cristão, de Foxe, Julián (ou Juliano) “empreendeu levar da Alemanha para o seu próprio país um grande número de Bíblias, escondidas em barris e camufladas como vinho do Reno”. Ele foi traído e preso pela Inquisição católica romana. Aqueles a quem as Bíblias se destinavam “foram todos indiscriminadamente torturados, e depois, a maioria deles foi sentenciada a diversas punições. Juliano foi queimado, vinte deles foram assados em espetos, vários foram encarcerados pelo resto da vida, alguns foram publicamente açoitados, muitos foram enviados às galés”.

Julián Hernández passou por tudo isto, não para proteger o livro em si, mas a mensagem que ele continha.

Desprezar na vida as palavras da Bíblia Sagrada parece ser, para o cristão, muito mais grave do que perdê-la como objeto físico. E aqui todos nós nos batemos com nossas próprias consciências, pois conhecemos nossos erros. Há, no entanto, uma diferença entre fraquejar e cair em pecado e escolher impenitentemente um caminho que se sabe ser ofensivo ao espírito das palavras de Jesus Cristo.

Infelizmente, individualmente ou como grupo, são tantos os que escolhem o desprezo pela mensagem e, nestes casos, a Bíblia está perdida para eles.

Neste ano de 2018, por exemplo, várias igrejas literalmente abandonaram sua missão de acolher almas perdidas ou cansadas dos seus fardos e levá-las a Cristo, oferecendo-lhes o conforto de sua mensagem de amor, de restauração e de vida nova, para se transformarem em verdadeiros comitês eleitorais, dedicando horas e mais horas de sermões, estudos e orações à tentativa de orientar, não o discípulo a uma vida de obediência e fé, mas o eleitor e seu voto. Há uma evidente vontade, por parte dos grandes caciques religiosos brasileiros, de estarem perto do poder.

Para atingirem este objetivo mundano, levaram seus rebanhos a desprezar o Espírito Santo, por meio do qual, ensina-nos a Bíblia, sua mensagem foi inspirada. (2 Timóteo 3:16,17) E isto não é pouca coisa.

Observe o estrago que foi feito na credibilidade das instituições religiosas, e atente para a mensagem que elas escolheram seguir no lugar daquela ensinada pelo exemplo e pelas palavras do mestre de Nazaré.

“Quando os fariseus viram isso, perguntaram aos discípulos dele: “Por que ceia o vosso mestre com publicanos e pecadores?” Mas Jesus, ouvindo, responde: “Os sãos não necessitam de médico, mas sim, os doentes. Portanto, ide aprender o que significa isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifícios’. Pois não vim resgatar justos e sim pecadores’.” (Mateus 9:11-13.)

Jesus era encontrado com muita frequência entre os “publicanos e pecadores”. Cobradores de impostos, ladrões, prostitutas, mentirosos, levianos, enganadores, gente excluída da sociedade, minorias desprezadas pelas elites de seu tempo, faziam todos parte daquele grupo com quem Jesus preferia estar, pois veio para eles, para lhes oferecer vida nova, redenção e salvação.

A campanha de 2018, com sua gigantesca pauta moral, está indo no caminho oposto. Instituições religiosas estão empenhadas, no campo da política, em criminalizar os excluídos e deixar claro quem são os “pecadores”, separando-os e desprezando-os como indesejáveis numa sociedade “cristã”. Se para Cristo tais pessoas precisavam de companhia, cuidados e orientação, para seus professos seguidores modernos o que elas merecem é desprezo e, nas palavras de um candidato, “as minorias tem que se curvar ou desaparecer”. Nem Jesus, o verdadeiro Messias, Filho do Deus Todo-Poderoso, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores, impôs tal trato a quem estava longe da sua mensagem. Antes, buscou a conversão, pois o tempo não era de oferecer juízo, mas paz e restauro espiritual.

Em sua primeira carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo cita ladrões, avarentos, beberrões, adúlteros, assassinos, mentirosos e até pessoas que se entregavam a um tipo de exercício da sexualidade que não está de acordo com o que Cristo ensinou, e disse:

“Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus.” (1 Coríntios 6:11)

O que é um cristão senão alguém que se descobriu naturalmente sujo e errante e passou a entender sua necessidade de seguir a Cristo em seu exemplo e em seus ensinos? O que é um cristão senão alguém que, nas palavras do apóstolo Pedro, ‘se arrependeu e deu meia volta, a fim de ter seus pecados perdoados’? (Atos 3:19)

E, no entanto, em vez da mensagem de perdão, arrependimento e conversão, não são poucas as instituições religiosas e líderes ditos “cristãos”, muitos dos quais atribuem a si mesmos os títulos de pastores, bispos e apóstolos, que adotaram como regra o ensino diabólico de que não há restauração possível para certos pecadores, mas que ‘bandido bom é bandido morto’. Não serve tergiversar sobre este assunto: para Jesus, nenhum bandido está além de recuperação. Esta é sua mensagem central.

“Nós, na verdade, estamos sendo executados com justiça, pois que recebemos a pena que nossos atos merecem. Porém, este homem não cometeu mal algum!” Então, dirigindo-se a Jesus, rogou-lhe: “Jesus! Lembra-te de mim quando entrardes no teu Reino”. E Jesus lhe assegurou: “Com toda a certeza te garanto: Estarás comigo no paraíso!” (Lucas 23:41-43.) 

Pode-se discutir se o ensino de Jesus faz sentido como política pública – embora não se destinasse a isto -, mas o que não é permitido ao cristão é adotar em seu coração um pensamento diferente do dele, passando a ensinar a suposta eficácia da vingança, quer pessoal, quer estatal, como substitutos aprovados do perdão, da misericórdia e do amor, enterrando o sentido da mensagem redentora. Fazê-lo seria abraçar o diabo, não a Cristo.

Mas e o aborto? Não há a menor possibilidade de que alguém, conhecendo os Evangelhos, aprove conscienciosamente o aborto. Aborto é pecado, e grave! Não se espera que um cristão aceite praticar aborto. Deve empenhar-se a viver segundo este entendimento e ajudar outras pessoas, por seu exemplo e ensino, a repudiar esta prática.

Diferente do acima é engajar-se na luta política em torno do tema, tentando obrigar toda a sociedade a aceitar a imposição de suas crenças. Uma coisa é o aborto ser pecado, outra é ser considerado crime civil. De que se trata de um pecado o cristão não deve abrir mão; de que é crime civil ou não, a discussão está além da esfera do ministério particular de cada um, sendo própria de parlamentos laicos, não dos púlpitos das igrejas.

Para efeito de má comparação, mas útil, considere outro pecado que a Bíblia considera grave, passível de deixar seu praticante fora do Reino de Deus: PORNEÍA. Já ouviu falar?

Porneía é um termo grego, geralmente traduzido por “fornicação”, que inclui todas as formas de relações sexuais fora do casamento. Não há meio termo sobre isto: as relações sexuais, conforme a mensagem bíblica, devem ser usufruídas dentro do arranjo matrimonial. Sim, é isto mesmo: transar sem ser com a pessoa com quem se está casado é pecado, segundo a Bíblia. E o fornicador impenitente não pode esperar outra coisa que não o desagrado de Deus. (Veja 1 Coríntios 6:9-11 e Apocalipse 22:15.)

Imagine que as bancadas religiosas no congresso nacional, supostamente empenhadas em tornar o Brasil mais cristão, empreendessem criminalizar a porneía! Quantos presídios seriam necessários para acolher os criminosos? Onde você, seu pai, sua mãe, seus filhos, seu pastor, seu padre, iam parar?

Vale ressaltar que porneía inclui a prática da homossexualidade, não a condição de ser homossexual. Não faz sentido, portanto, do ponto de vista da coerência, o ativismo político-cristão contra LGBT’s enquanto estes mesmos ativistas toleram, com amplo perdão e misericórdia, os fornicadores héteros em seu meio. Não há nenhuma diferença quanto a ser praticante de porneía sendo gay ou hétero.

Não faz sentido querer impor ao mundo, através da política, as crenças cristãs. O exercício do cristianismo deve ser feito em base individual, cada qual tomando para si a responsabilidade de ser “sal” e “luz” para os demais. (Mateus 5:14-16) A tentativa de impor pautas religiosas a administração política das sociedades resulta em desastre.

Na época de Jesus, muitos ansiavam desesperadamente um governante que resolvesse seus problemas econômicos e políticos. Impressionados com as habilidades de Jesus, queriam que ele entrasse na política. Qual foi sua reação? João escreveu em seu Evangelho que Jesus, “sabendo que estavam para vir e apoderar-se dele para o fazerem rei, retirou-se novamente para o monte, sozinho”. (João 6:10-15) Fica evidente que Jesus não quis se envolver na política de seus dias. O foco dele era pregar um Reino que não faz parte deste mundo.

“O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue.” (João 18:36)

Esta é a responsabilidade primária de qualquer instituição que se afirme cristã: pregar o Reino de Deus, um que não faz parte deste mundo. O ativismo político – ressalvada a liberdade individual de cada um exercê-lo, se assim preferir -, só divide quando é feito por uma instituição que deve prezar, fundamentalmente, pelo cuidado espiritual das pessoas que se aproximam dela.

Esta parece ser a mensagem da Bíblia. E esta Bíblia – isto sim é grave -, está cada vez mais perdida.

EDITORIAL

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