Lula, Dilma e Ricardo Coutinho, governador da Paraíba, durante evento no município de Monteiro.

O ex-presidente Lula participou, neste domingo, 19, na companhia da ex-presidente Dilma, de vários parlamentares e de dezenas de milhares de pessoas de todo o Nordeste, sob os holofotes da grande mídia nacional, do que foi chamado de Celebração das Águas, evento de “inauguração popular” do eixo Leste da transposição do Rio São Francisco, em Monteiro, na Paraíba, um sonho antigo e que representa redenção hídrica para esta região do Brasil. A convite do prefeito de Quixadá, Ilário Marques, eu estive lá e presenciei de perto cenas impressionantes de apego do povo nordestino a Lula.

Na manhã de domingo, ainda hospedado na cidade de Patos, Ilário conversou por telefone cerca de vinte minutos com Lula. Os dois, evidentemente, além de correligionários, são amigos; aliás, pelo que pude perceber, partilham de visões bem semelhantes quando o assunto é política social e economia. É claro que tive interesse em conversar com Lula e trazer o diálogo para a sessão de entrevistas do Diário de Quixadá. Apesar do rígido controle da agenda do ex-presidente pelo Instituto Lula, Ilário conseguiu um momento para eu conversar com exclusividade com aquele que foi o presidente mais popular da história brasileira. Segue parte da conversa.

GOOLDEMBERG SARAIVA: Obrigado por aceitar conversar comigo, presidente. Sinto-me honrado com sua gentileza. Gostaria, primeiro, de perguntar ao senhor o que esse momento em Monteiro representa em sua história de vida?

LULA: Olhe, eu sei o que é conviver com a seca e com o esquecimento político das necessidades do povo nordestino. Quando eu me tornei presidente a primeira vez, tirar do papel o plano da época do Império e fazer com que as águas do Velho Chico chegassem a lugares como Monteiro era um desejo que eu já tinha, até porque aquilo era um sonho do meu povo sofrido. Eu me sinto muito feliz. Mas mais importante ainda é você entender o que isso representa para o povo do Nordeste. A transposição do São Francisco é um sonho antigo, que sempre fez parte do discurso de muita gente, mas que nunca havia sido tratado realmente como prioridade nacional. Quem nada fez para ver esse sonho concretizado tem vergonha de falar sobre paternidade da obra. Nós não. Nós, eu, Dilma, Ciro, nosso governo popular, o povo do Nordeste e o Brasil que entendeu o que devia ser feito, nós somos pais, irmãos, filhos e filhas da transposição do São Francisco e, em vez de vergonha, a gente tem orgulho de dizer isso.

GOOLDEMBERG: Presidente, o avanço das investigações da Lava Jato, com suas já costumeiras delações premiadas e altíssima exposição midiática, de alguma forma preocupam o senhor? 

LULA: Você está falando com um homem que anda de cabeça erguida o tempo todo. Eu não me envergonho das grandes lutas que vivi e que vivo pelos interesses do povo brasileiro. O que me preocupa mesmo é que a verdade seja contada e que, no final, quem tiver de ser punido que seja. Tanto é assim que nenhum governo fez o que nós fizemos para fortalecer instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público. Eu estou de consciência limpa, pode ter certeza e, apesar da idade, graças a Deus com muita energia para discutir o futuro do Brasil.

GOOLDEMBERG: Lula é candidato a presidente?

LULA: Não hoje. Ainda está longe da época para decidir candidatura. Minha ida a Monteiro não é para dizer que sou ou não candidato. Eu vou lá abraçar meu povo e comemorar com eles a realização de um sonho. Mas eu lhe digo aqui e vou dizer lá em Monteiro daqui a pouco: tem muita gente que quer evitar que eu seja candidato. Pois rezem para isso não acontecer, porque se eu for é para ganhar. (Lula, de fato, disse isto no palanque e a frase foi manchete nos maiores jornais do país.)

GOOLDEMBERG: Presidente, no ano passado Quixadá escolheu retomar as políticas do PT para o município e elegeu Ilário Marques para o comando da prefeitura. Queria pedir que o senhor mandasse uma mensagem para os quixadaenses. 

LULA: Tenho muito carinho por Quixadá. Pode ter certeza que eu quero ir a Quixadá em breve. Estava agora há pouco conversando com o companheiro Ilário sobre isso. Olhe, primeiro quero que você diga aos quixadaenses da minha gratidão pela escolha do nome do Ilário na eleição do ano passado. Ilário é um grande amigo e eu confio muito na capacidade dele para retomar as políticas que construíram o desenvolvimento, não só de Quixadá, mas da região. Eu espero sinceramente que as coisas aconteçam, sabe, para as pessoas ali, onde eu sei que há um grande carinho pela gente.

Neste momento alguém interrompe a conversa para lembrar a Lula que um senador estava na linha, aguardando para conversar com ele. Não consegui entender de que senador a pessoa estava falando. Agradeci novamente ao presidente pela gentileza da entrevista. “Apareça lá em Monteiro”, disse Lula. “Apareça mesmo em Quixadá”, retribuí.

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Gooldemberg Saraiva é editor do Diário de Quixadá


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