Na foto, Gooldemberg Saraiva, editor do Diário de Quixadá (à esquerda) e Sérgio Costa (à direita).

“Melhor ir à casa do luto que à casa em festa, pois assim deve findar todo o homem. Quem vive reflita nisto”, diz uma passagem bíblica. (Eclesiastes 7:2) De fato, a morte une todos os homens à mesma condição. Alexandre, O Grande, que atravessou os portões de Babilônia com a glória de um deus feito de carne, teve, no final, o mesmo destino daquele garotinho pobre que, da fresta da porta de sua casa, assistiu impressionado a entrada triunfal do poderoso governante grego. Reis e peões voltam para a mesma caixa no fim do jogo.

Acredito que quando a Bíblia nos orienta a refletir na finitude e na brevidade da vida, ela o faz para nos incentivar a usufruí-la da melhor forma possível. É claro que sempre haverá divergências sobre qual pode ser esta melhor forma de viver; mas um ponto no qual todos podemos concordar é que amar o próximo, respeitar os outros, trabalhar honestamente e ser leal às próprias convicções são características do viver bem.

É por isto que eu tenho certeza que Sérgio Costa, o Serginho do Seu Osvaldo, viveu bem. Amigo recente, conversávamos eventualmente sobre várias semelhanças em nosso trajeto de vida, especialmente no aspecto do exercício da fé cristã, pois guardávamos experiências muito parecidas em relação às organizações religiosas às quais um dia tanto nos dedicamos. Não era preciso conhecê-lo muito para saber que o Serginho possuía os predicados citados no parágrafo anterior.

Trabalhador honesto, zeloso pelo bem estar daqueles sob sua guarda e direção, tinha modos simples. Profundamente educado e polido com os outros, mesmo nas ocasiões mais informais, era também inteligente, de vocabulário rico e bem articulado, homem de extenso conhecimento sobre as Escrituras Sagradas (professou até o final a fé adventista, embora tenha sido outrora mal interpretado por boa parte dos seus pares, o que o levou a um processo de contínuo afastamento da religião institucionalizada) e totalmente comprometido com o bem estar da sua cidade. Serginho, acima de tudo, comportava-se com humildade. E isto não é uma lisonja típica daquelas que costumam oferecer aos falecidos. Não, não é. Quem conviveu o mínimo com ele sabe que ele era o tipo de ser humano a quem se podia dar com total razão o título de gente boa.

Há vários dias eu tentava convencê-lo a me deixar escrever para o Diário de Quixadá uma história curiosa sobre a Casa Vitória. Seus funcionários recebem uma espécie de décimo quarto salário, algo que tenho quase certeza que não é feito por nenhuma outra empresa quixadaense. Gesto de desprendimento e generosidade herdado do pai. Discreto, Serginho sempre me pedia para deixar a história para mais à frente. Nunca escrevi a respeito. Isto, agora, é mais uma daquelas coisas que engrandecem a sua pessoa. Viveu bem.

Por que? É a pergunta mais insistente em momentos como este. De um jeito ou de outro, todos queremos entender os motivos que levaram a este fim tão trágico. Há um mundo inteiro na mente e no coração dos humanos. Forças além da nossa compreensão e do nosso controle. Por vezes, do alto da nossa ignorância, ousamos atrevidamente julgar esta ou aquela atitude tomada por outros. Só sei que Jesus, o Filho do Deus Vivente, aquele que conhece o coração de todos, é apresentado nos evangelhos como tendo descido do céu para acolher os doentes, para perdoar os pecadores, não para julgá-los; para compreendê-los, não para afastá-los de si.

Acredito na profunda compreensão que o Senhor Jesus Cristo tem da nossa humanidade, e acredito que, inclusive por isto, sabe ser tão perdoador, principalmente com aqueles que chegam a tão terrível estado de espírito e desespero. “Ele sabe que somos pó”, diz o Salmo 103:14. Não nos cabe fazer julgamentos, mas tão somente confiar no amor divino, em sua misericórdia e em seu perdão, elementos superiores aos valores das tradições legalísticas produzidas pelas escolas religiosas.

Serginho acreditava piamente na promessa de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (João 11:25) Pela misericórdia de Deus, haverá de chegar o dia em que pais, filhos e amigos se abraçarão na ressurreição dos mortos, o grande reencontro. E o direito a esta não será concedido pela exibição de uma placa de igreja, identificando a denominação à qual pertencemos; mas será dado amplamente segundo o beneplácito eterno e o amor paternal de Deus por seus filhos. Tenho plena fé de que o Serginho está agora descansando até que venha esta “hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a voz de Cristo e sairão.” (João 5:28)

Em memória do querido amigo Sérgio Costa, portanto, dedico esta passagem – a minha preferida das Escrituras -, na certeza do cuidado de Pai que Deus tem com seus filhos:

“Bendize, ó minha alma, ao Senhor, 
e não te esqueças de um só de seus benefícios.
Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades; 
quem sara todas as tuas feridas.
Ele é misericordioso e compassivo;
longânimo e assaz benigno.
Não repreende perpetuamente,
nem conserva para sempre a sua ira.
Não nos trata segundo os nossos pecados,
nem nos retribui consoante as nossas iniquidades.
Pois quanto os céus se alteiam acima da terra,
assim é grande a sua misericórdia.
Tão distante o Oriente do Ocidente,
assim afasta de nós as nossas transgressões.
Como um pai se compadece dos seus filhos, 
assim o Senhor se compadece dos que o temem.
Pois ele conhece a nossa estrutura,
sabe que somos pó.”

(Salmo 103:2-14)

Gooldemberg Saraiva é editor do Diário de Quixadá


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