Fragmento de pergaminho com texto bíblico manuscrito em grego no laboratório da Autoridade de Antiguidades de Israel, em Jerusalém – Ammar Awad – 16.mar.21/Reuters.

Em uma corrida contra saqueadores de antiguidades, arqueólogos israelenses descobriram dezenas de fragmentos de pergaminhos manuscritos com textos bíblicos datados de pelo menos 2.000 anos atrás.

Os achados, preservados pelo ar quente e seco do deserto da Judeia, incluem ainda um esqueleto parcialmente mumificado de uma criança (estimado em mais de 6.000 anos) e uma cesta de artesanato elaborado praticamente intacta que os arqueólogos afirmam ter mais de 10,5 mil anos.

Segundo o anúncio feito pela Autoridade de Antiguidades de Israel (AAI) nesta terça-feira (16), as relíquias foram encontradas durante um levantamento em uma área de aproximadamente 100 km próxima do Mar Morto.

Os pergaminhos são como uma nova peça de quebra-cabeça de um conjunto maior de textos milenares que foi descoberto entre as décadas de 1940 e 1950 na mesma região. A coleção, que ficou conhecida como Manuscritos do Mar Morto, forneceu aos arqueólogos e historiadores uma espécie de retrato da sociedade e religião judaicas de muito antes até algum tempo depois da época de Jesus.

Os “novos” manuscritos foram encontrados enrolados na Caverna do Horror, que fica a cerca de 80 metros abaixo do topo de um penhasco. Segundo a AAI, o local é “ladeado por desfiladeiros e só pode ser acessada com [equipamentos de] rapel”.

A partir dos fragmentos dos pergaminhos, a equipe de arqueólogos conseguiu reconstruir até agora 11 linhas do texto, escrito em grego. Os trechos identificados correspondem a passagens bíblicas dos livros de Zacarias e Naum, que fazem parte de um conjunto conhecido como “profetas menores”.

“Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas”, dizem os versículo 16 e 17 do capítulo 8 do livro de Zacarias, identificados nos pergaminhos. “E nenhum de vós pense mal no seu coração contra o seu próximo, nem ameis o juramento falso; porque todas estas são coisas que eu odeio, diz o Senhor.”

A outra passagem está no capítulo 1 do livro de Naum, versículos 5 e 6. “Os montes tremem perante ele, e os outeiros se derretem; e a terra se levanta na sua presença; e o mundo, e todos os que nele habitam”.

“Quem parará diante do seu furor, e quem persistirá diante do ardor da sua ira? A sua cólera se derramou como um fogo, e as rochas foram por ele derrubadas”, continua o texto bíblico.

Outra das descobertas anunciadas nesta terça é o esqueleto de uma criança que, de acordo com as análises, tem mais de 6.000 anos. De acordo com o jornal Times of Israel, pesquisadores da Universidade de Tel Aviv estimaram, com base se uma tomografia computadorizada, que a criança tinha entre 6 e 12 anos de idade quando morreu.

Esqueleto de 6.000 anos de uma criança encontrado pelos arqueólogos no deserto da Judeia – Divulgação/Autoridade de Antiguidades de Israel.

A partir das condições onde o esqueleto foi encontrado, os arqueólogos concluíram que a criança, encontrada em posição fetal em um poço raso cavado sob duas pedras, foi cuidadosamente envolta em um tecido por alguém.

“Ficou óbvio que quem enterrou a criança a envolveu [com o tecido] e empurrou as pontas do pano por baixo dela, assim como um pai cobre seu filho com um cobertor”, disse o arqueólogo Ronit Lupu, da AAI. As condições áridas da caverna, segundo ele, fizeram que a criança fosse naturalmente mumificada, de modo que o tecido, o cabelo e até mesmo pele e tendões foram preservados.

A terceira descoberta, um cesto datado de mais de 10,5 mil anos, foi classificado pela AII como um objeto “atualmente incomparável no mundo inteiro”. A estimativa da idade do objeto foi feita por meio do elemento carbono-14 e o situa no tempo no período Neolítico, pelo menos mil anos antes dos primeiros usos conhecidos da cerâmica.

“Pelo que sabemos, esta é a cesta mais antiga do mundo que foi encontrada completamente intacta e sua importância é, portanto, imensa”, disse a AAI, por meio de um comunicado.

Arqueóloga mostra cesto de 10,5 mil anos encontrado no deserto da Judeia – Menahen Kahana – 16.mar.21/AFP.

O enorme recipiente, com volume estimado entre 90 e 100 litros, foi feito a partir de material vegetal trançado. Infelizmente para os arqueólogos, estava vazio, mas a equipe fará análises no solo remanescente dentro do cesto para ajudar a descobrir para que foi usado e o que foi colocado nele.

A partir dos anos 1950, quando foram encontrados os Manuscritos do Mar Morto, uma onda de exploração ilegal se espalhou pela região. Ao longo do tempo, a ambição dos saqueadores e caçadores de relíquias foi esmorecendo, mas voltou a crescer na última década quando novos achados começaram a surgir no mercado clandestino.

Desde 2017, a AAI então começou a fazer uma varredura na região do deserto da Judeia para se antecipar aos ladrões de antiguidades. Segundo o Times of Israel, a equipe espera que as descobertas chamem a atenção das autoridades para atrair financiamento à operação que pretende continuar em busca de vestígios do passado.

(Publicado na coluna Mundo da Folha de São Paulo)


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